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  • Foto do escritorMônica Sanoli

Eu quero plantar tomates

A vida é mais simples agora. Eu me mudei para um lugar onde só os pássaros cantam, eu consigo escutar as vacas nos terrenos vizinhos e preciso me preocupar em cortar a grama antes que ela fique muito alta. A grama do jardim, porque agora eu moro em uma casa onde as coisas crescem, e do quintal onde meus cachorros brincam. Cachorros que eu sempre sonhei ter, mas nunca achei que seriam reais.

A vida é melhor agora. Motos, caminhões, buzinas e obras ficaram para trás. Não existe mais andar de cima, muito menos vizinhos barulhentos para ocupá-lo. A carne não é mais tão cara no açougue, e eu tenho acesso a verduras, frutas e legumes mais frescos. O mundo gira mais devagar por aqui. Tem gente que ainda anda de cavalo. Os problemas são diferentes. Faz frio e calor. Chove e venta. Eu penduro a roupa no varal e ela seca no mesmo dia.


Faz nove meses que a vida mudou, mas eu ainda não tinha acordado para essa realidade, porque, como de costume, estava presa em um mundo de mentiras, tentando alcançar padrões irreais de perfeição. Embora soubesse, objetivamente, que tudo aquilo era uma imensa baboseira, a matrix da matrix, o ápice da podridão, a porta aberta para a espiral da depressão e da ansiedade, eu me deixei levar. Porque no começo não era assim, era só uma rede social onde eu podia publicar fotos ruins e mal editadas do que eu bem quisesse. Era um fotolog melhorado, e como eu gostava do fotolog! O feed era cronológico, não existiam stories, nem reels, nem uma quantidade indecente de filtros para corrigir defeitos que não existem. Propaganda, então... nem pensar.

Deletei meu Facebook há anos, porque não tinha mais nada ali que prestava. Deletei meu Twitter durante a pandemia, porque entrar naquilo era certeza de passar mal de ansiedade. Mas do Instagram eu só desliguei as notificações e achei que estava a salvo. O mais curioso, eu acho, era que nem passava tanto tempo por dia no aplicativo. Mesmo. Meia hora, em média. Uma hora, quando não estava me sentindo muito bem. Meu cachorro me chamando para brincar, os pássaros cantando lá fora, e eu presa em reels que nem queria ver.


Eu vivo um esgotamento físico e mental que eu mesma provoquei há mais de um ano. Não só pelo uso "pessoal" do Instagram, mas também (e principalmente) por tentar usar a rede como plataforma principal de divulgação dos meus cursos de inglês. Desde que me tornei autônoma, a maior parte do meu tempo foi dedicada ao marketing, a crusos, workshops, qualquer coisa que me ajudasse a navegar e desvendar a área, porque ela é, de longe, meu maior ponto fraco. Ironia das ironias, o resultado teima em ser inversamente proporcional ao meu esforço. Em um dos meus típicos achismos estatísticos, diria que 90% das minhas alunas veio por indicação de outras alunas.


Entra em cena meu marido: "Porque você é uma ótima professora e uma péssima marqueteira. Se você fosse uma ótima marqueteira, provavelmente seria uma péssima professora".


Cedo ou tarde eu seria obrigada a encarar os fatos. Infelizmente, perdi nove meses de uma vida nova e maravilhosa antes disso acontecer. Felizmente, aconteceu antes que algo mais grave tomasse conta de mim: a velha depressão, que nunca vai embora de fato. Ela se esconde, ronda, fareja e espera para atacar quando eu já perdi todas as minhas defesas. Ela me conhece muito bem, porque dançamos juntas desde que eu era criança. Eu gosto de pensar que também a conheço como a palma da minha mão, mas ela sempre tem uma carta na manga, e eu a desprezo por isso.

Então, eu disse chega, quis dar um basta na situação e cortar o mal pela raiz. É por isso que este blog nasceu, em uma mudança de foco meio ensaiada, meio improvisada. Ainda dou aulas de inglês, e você pode entrar em contato comigo para saber mais sobre isso. Mas o blog não será alimentado por um marketing nojento e vazio, que não funciona porque eu me recuso a aprender (encarando os fatos). Ele será, em vez disso, meu espaço seguro. Nosso espaço seguro, se você quiser me visitar de vez em quando.


Meu perfil na rede social do culto à comparação e ansiedade vai continuar lá por enquanto, mas quando eu plantar meu pezinho de tomate, reformar minha mesa do escritório e construir um armário para a área de serviço, é aqui que vou mostrar e contar como foi.


Seja bem-vinde a minha nova vidinha. É bom te ter por aqui.

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